Um quarto, uma cama de casal, algumas
roupas pelo chão. Ao fundo, a voz de Mick Jagger ecoando com “wild, wild horses
couldn’t drag me away”. Ela, de calcinha, meias e uma camiseta preta estampada
com um de seus rostos preferidos. Estava sentada no colo dele, pernas enlaçadas
ao redor de sua cintura, olhos fixos nos olhos dele – os olhos mais belos e
expressivos que ela havia visto em quase três décadas de existência. Naquele
momento ele a contemplava, dizendo tanto sem proferir quaisquer palavras. Ela,
hipnotizada pela pinta no canto direito do lábio superior daquele rapaz,
repetia mentalmente “you know I can’t let you slide through my hands”. A
dimensão das sensações de cada um deles era inefável e eles permitiam-se sentir,
cada vez menos controlados por convenções. A noite era deles, afinal. A noite e
a vida toda.
terça-feira, 16 de junho de 2015
terça-feira, 13 de maio de 2014
Tapa a domicílio
Ding
Dong.
-
Pois não?
-
Boa tarde. Você é a Mariana “Dangélo”?
-
É “Dângelo”. Sim, sou eu.
-
Então toma isso, sua vagabuda!
TAP!
-
(???)
-
Só vim aqui pra isso. Até logo!
*Baseado
em fatos reais.
sábado, 3 de maio de 2014
O meu problema
O problema em escrever é que a gente, uma hora ou outra, acaba se expondo além do limite.
terça-feira, 29 de abril de 2014
Do inconsciente
Ela tinha uma orca de estimação. A orca se chamava
Orca, para fazer jus à sua extrema falta de originalidade. Pois bem, Orca vivia
em uma piscina e nadava em movimentos quadrangulares enquanto era alimentada
por sua dona.
Em um fim de tarde, a dona disse:
- Vem, Orca!
E a Orca saltou para fora da piscina.
Nesse momento, o que parecia sonho virou pesadelo. A
Orca foi até as ruas, invadiu o comércio e começou a devorar todos à sua volta.
A dona pedia para que ela parasse, mas a Orca não lhe dava atenção.
- Escondam-se dentro das lojas! – berrava a dona.
- Precisamos deter esse bicho! Temos que matá-lo! –
diziam as pessoas, aterrorizadas.
Mas sua ligação com a orca de estimação era tão forte
que ela não podia conceber a ideia de permitir que alguém a matasse, ainda que
o animal representasse um perigo iminente a toda a sociedade. Assim, resolveu,
por sua conta e risco, tentar conduzir Orca de volta à piscina.
O problema não foi conseguir restituir o animal à
piscina, e sim, mantê-lo lá. Isso porque a Orca, que já tinha conhecido o mundo
do lado de fora d’água, tinha achado muito mais interessante devorar passantes
do que continuar em seu nado quadrangular. Quando começava a se sentir
entediada, portanto, a Orca dava um pulinho e sua sorte mudava.
Inconformada com a situação, a dona construiu um muro
imenso ao redor da piscina: Orca nunca mais entraria em contato com o mundo
externo. Mas a orca, que, além de louca de esperta, não queria ficar confinada
à sua piscina quadrangular, deu um golpe de mestre: devorou o muro. E, não
satisfeita, comeu também sua dona.
O mundo era seu, enfim.
Nota: essa história não é uma simples piração. Ela retrata um sonho que tive há alguns dias e os símbolos contidos na história possuem seus devidos significados em um dado contexto.
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
Sanatório
Ela foi chamada com um aviso de que o Sr. Walide havia defecado em suas
próprias calças. Quando isso acontecia, as roupas eram imediatamente
descartadas e os excrementos, separados em um saco plástico para serem
eliminados. O Sr. Walide, no entanto, pensava em suas fezes como um prêmio, que
deveria ser sorteado às quartas-feiras, junto com os pães. “Quem quer ganhar
minha merda? Podem comer bastante, fica uma delícia com pão!”, ele bradava.
Ela pensava que aquele trabalho era difícil, mas muitos pacientes
conseguiam colaborar. No entanto, havia casos excepcionais, como o de Sr.
Walide...
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
Não gostou
Cursou Direito por insegurança
à época, mas descobriu que não gostava de leis. Leis eram retrógradas e
unilaterais. Posteriormente cursou Psicologia, mas descobriu não gostar de
pessoas. Pessoas tardam a morrer e passam anos enchendo o saco. Não são como os
animais, que vivem os poucos anos que possuem distribuindo alegria e afeto por
aí. Poderia ter cursado Medicina Veterinária, mas não saberia lidar com perdas –
animais morrem muito rápido e facilmente. Por que não são como as pessoas sob
esse aspecto (apenas sob esse)? Descobriu não gostar de perdas. Observou tudo e
guardou numa caixa para ser analisado. Por fim, concluiu: não gostou e jamais
gostaria de nada.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
Meio sim, meio não
Mais uma vez o
despertador tocava às 7 da manhã. Eu havia trocado o dia pela noite, assim como
em quase todos os outros dias no último mês. Ter que me levantar, pentear os
cabelos, escovar os dentes e sair de casa pra trabalhar, a troco de quê? De um
salário que seria quase que inteiramente gasto com supérfluos, como seria de se
esperar de um almofadinha de merda? Isso não me servia. Eu não esperava nada da
vida, tampouco precisava de dinheiro porque poderia muito bem viver como um
andarilho por aí, à margem dessa sociedade imunda. Eu não queria ter nem ser,
apenas ansiava por uma saída que jamais viria. E enquanto isso eu me sentia como um
personagem de Bukowski, às vezes sacana, às vezes deprimido, às vezes solitário
e quase sempre fodido.
Trechos
Jamais haveria um jeito de eu viver confortavelmente entre as pessoas. Talvez eu me tornasse um monge. Fingiria acreditar em Deus e viveria num cubículo, tocando órgão e eternamente embriagado de vinho. Ninguém foderia comigo. Eu poderia entrar numa cela e ficar meditando durante meses sem ter que ver a cara de ninguém, apenas o vinho chegando, sempre. Havia, porém, um problema: os hábitos negros eram de pura lã. Eram piores que o uniforme da R.O.T.C. Eu não poderia vesti-los. Precisava encontrar outra solução.
[Misto-Quente, Charles Bukowski]
[Misto-Quente, Charles Bukowski]
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Trechos
Os livros sobreviveram à televisão, ao rádio, ao cinema falado, às circulares (revistas primitivas), aos diários (primeiros jornais), ao teatro de bonecos de Punch e Judy e às peças de Shakespeare. Sobreviveram à Segunda Guerra Mundial, à Guerra dos Cem Anos, à Peste Negra e à queda do Império Romano. Sobreviveram inclusive à Idade Média, quando quase ninguém sabia ler e cada livro tinha de ser copiado a mão. Eles não serão exterminados pela Internet.
[Dewey - Um gato entre livros, Vicki Myron]
[Dewey - Um gato entre livros, Vicki Myron]
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