segunda-feira, 29 de outubro de 2012

"Ensaio sobre a cegueira": uma análise crítica

O filme em questão baseia-se na obra homônima de José Saramago, na qual a população de uma cidade se vê acometida por uma epidemia repentina e inédita, que ocasiona “cegueira branca”. A população é infectada aos poucos e todos aqueles atingidos pela cegueira são isolados em um sanatório desativado, sob a alegação governamental de que tal ação tratar-se-ia de medida de segurança. No local, as condições são sub-humanas. O caos é total, a sujeira se alastra por todo o ambiente e a alimentação é insuficiente.
Salienta-se que há na área de isolamento uma mulher que consegue enxergar. Ela é esposa de um oftalmologista que foi infectado pela doença e durante todo o tempo em que lá se encontra, solidariza-se com o grupo e trabalha em prol da coletividade, seja cuidando da higiene alheia, seja guiando as pessoas, ou ainda, realizando outras atividades em benefício do grupo. No início ninguém sabe que a mulher enxerga, pois ao perceber que o marido seria encaminhado à área de isolamento, ela diz também não enxergar.
Quem detém o controle sobre a população isolada são soldados que ainda enxergam. Estes fornecem a alimentação, que é racionada por aquela. Ocorre que uma das alas resolve controlar o racionamento, estabelecendo pagamento pela comida. Quando esgotam-se as jóias, relógios e outros bens, os integrantes da ala dominante exigem as mulheres como forma de pagamento.
Após um episódio de violência sexual, a mulher que enxerga decide matar o líder da ala exploradora, gerando uma guerra interna no local. Depois de algum tempo todos conseguem sair do sanatório, guiados pela mulher, que percebe um estado de total desordem nas ruas. Pessoas disputam alimentos como animais e seres humanos mortos nas ruas são devorados por cães.
Ao final, o primeiro homem a ficar cego consegue recobrar sua visão. Surge, com isso, a esperança de que todos consigam também voltar a enxergar.
Em primeiro lugar, torna-se necessária a análise do tipo de cegueira. Não é uma cegueira usual, em que os cegos tem apenas a percepção da escuridão, mas sim uma cegueira “branca”, na qual constata-se uma superfície leitosa. O branco representa a existência total de luz e, no entanto, ninguém consegue ver diante de um excesso de claridade. É possível fazer uma interpretação no sentido de que as pessoas “enxergariam demais” sem que essa luz se refletisse, ou seja, o excesso de luz as cegaria. Dessa maneira procede a sociedade: as pessoas possuem acesso a diversas informações, o saber está em toda parte, mas isso não é suficiente: se o saber é intenso mas não há reflexão sobre ele, ocorre uma cegueira social, ou alienação. Ou seja, pode-se dizer que o saber apenas colocado à disposição mas não utilizado funciona como excesso de luz, que ao invés de iluminar, cega.
Desde os primórdios a ideia de alienação vem sendo perpetuada pelas classes dominantes, ou seja, a alienação possui uma construção histórica. Isso faz com que o poder seja mantido por apenas um pequeno grupo de pessoas, enquanto a maioria esmagadora permanece alienada para servi-lo. É a falta de reflexão e, muitas vezes, de conhecimento, que leva populações a serem dominadas por líderes tiranos e corruptos, inclusive nas sociedades contemporâneas. Tal processo ocorre através de simples reprodução das representações sociais durante diversas gerações.
Evidenciam-se na obra valores sociais extremamente frágeis, assim como nas reais sociedades. Onde ninguém pode ver, os problemas sociais não aparecem. No filme algumas pessoas chegam a andar nuas porque o pudor não mais existe – se ninguém é capaz de ver uma pessoa nua, não há porque existir pudor. Da mesma maneira ocorre com a falta de higiene e com os valores sociais e morais. As pessoas se habituam a viver nesses moldes em razão de sua cegueira física e moral. A fragilidade de valores sociais e morais é bem ilustrada na cena onde o líder da ala 3 estabelece que entregará a quantidade de comida que achar conveniente, independente da quantidade e qualidade dos objetos trazidos como pagamento, bem como nos momentos em que submete mulheres à exploração sexual, ou ainda, nas cenas onde aponta uma arma de fogo em direção às pessoas que deseja reprimir.
A única integrante do grupo que consegue enxergar não é capaz de agir sozinha até que um desastre ocorra, qual seja, a morte de uma das mulheres de sua ala em razão do abuso sexual sofrido pela ala dominante. Até então ela não se rebela para não gerar uma guerra, o que denota a preocupação que nutre por todo o seu grupo, entretanto, ao constatar a ameaça iminente, resolve matar o líder da ala exploradora. Há claramente uma ação extrema que tem como objetivo a salvação coletiva e especula-se que seja esse o motivo pelo qual ela não se deixa cegar: ela não faz parte da massa alienada porque não centra seus pensamentos apenas em si mesma. Essa mulher consegue manter-se como a única testemunha da total degradação do ser humano, é a única capaz de enxergar nas mais diversas acepções os eventos que ocorrem à sua volta.
O filme exibe uma cena na qual a mulher dotada de visão adentra uma igreja que abriga diversas pessoas acometidas pela epidemia. O padre discursa sobre a cegueira como forma divina de cura, esclarecendo que “assim como Deus converteu pela cegueira Paulo, que perseguia e matava os cristãos, também converteria toda a população ora desprovida de visão”. Evidencia-se nessa cena a forte influência alienante que a igreja católica exerce sobre os indivíduos desde a Idade Média, período caracterizado pela venda de indulgências e pela fixação de dogmas. No discurso, é perceptível a ideia alienante de que a cegueira é instrumento de cura e não de perdição. O papel da igreja, desde seus primórdios, sempre foi no sentido de que seus ideais eram indiscutíveis, de modo que aqueles que não questionam suas ideologias garantem a bênção divina e a salvação eterna. Através do discurso feito pelo padre na obra, constata-se que Deus converteria pela cegueira porque aqueles que não são capazes de ver, também não são capazes de questionar.
Também é possível fazer uma interpretação acerca do regime político vigente. Enquanto são poucos os indivíduos isolados no local, a administração e resolução dos problemas é mais fácil, assim como o convívio. Todos participam das tarefas e colaboram entre si. Conforme o número de integrantes aumenta, surge entre eles a necessidade de comando e dominação. O líder da ala 3 se autointitula “rei” do lugar, ou seja, um sistema antes democrático torna-se então absolutista, tirano. O poder coercitivo modela o comportamento dos indivíduos, até que eles atuem exatamente da maneira como o seu líder deseja.
Pode-se construir uma analogia entre o contexto da obra e alguns fenômenos históricos e sociais, como é o caso da Revolução Industrial e do próprio sistema de produção capitalista. Em ambas as situações há um sistema de dominação, sendo que no filme a dominação ocorre, em primeiro grau, por aqueles que ainda enxergam. Quem controla o lugar são soldados que ainda não foram infectados pela cegueira branca, isto é, homens armados que vigiam a área isolada e atiram em qualquer indivíduo que estabeleça tentativas de fuga ou que não aja de acordo com as regras estabelecidas. No século XIX, a dominação ocorre por parte da burguesia, que controla a classe proletária – não através de armas como no filme, mas através da oportunidade de manutenção da subsistência de uma classe menos favorecida mediante sua própria exploração. Da mesma maneira, no sistema de produção capitalista, quem exerce o domínio são os detentores dos meios de produção sobre os detentores da força de trabalho. Essa mesma exploração é observada no filme também por parte dos líderes em segundo grau, que encontram-se acometidos pela cegueira. Eles controlam os suprimentos como no sistema capitalista, determinando os “preços” com base na lei da oferta e da procura, ou seja, se todos precisam se alimentar a procura é naturalmente alta e os preços fixados também tornam-se altíssimos, caracterizando o acúmulo de riquezas derivado da exploração em todos os seus sentidos. Salienta-se ainda, numa comparação com o sistema capitalista, que a exploração ilustrada no filme é muito mais intensa em virtude de não haver “concorrência”, pois todos os suprimentos encontram-se em poder de um único grupo.
Outro aspecto interessante a ser observado é o modo como a escolha de líderes pode se tornar um fator diferencial na existência dos grupos sociais. Se um determinado grupo se deixa governar por um tirano, sofre as consequências da dominação e da exploração em seus mais variados graus. Em contrapartida, ao escolher um líder sensato e com foco na coletividade (como é o caso da mulher capaz de enxergar), um grupo social consegue participar ativamente de seu desenvolvimento, bem como manter sua identidade e seus valores.
A cegueira caracteriza, enfim, a alienação de uma sociedade. O sistema estabelecido é alienado e nele, somente aquele que possui a vontade de ver é que o faz, isto é, apenas quem se dispõe a raciocinar e questionar as ideologias dominantes consegue se desprender das relações de dominação e viabilizar o processo de tomada de consciência de si e do grupo social ao qual pertence.

(Trabalho de Psicologia Social apresentado por mim no 2º período do curso de Psicologia).

6 comentários:

Anônimo disse...

Excelente texto. Viajei nele. Parabéns.

Anônimo disse...

Boa análise de cunho Marxista- Bourdieu

Caroline disse...

Fiquei impressionada com sua análise, gostei muito, e esclareceu algumas dúvidas. A análise da única pessoa que enxerga para mim, genial. Parabéns!

Marcelo tavares de lira disse...

Um filme que nos representa, egoístas, dominados, com valores desprezíveis, mas temos que ver este filme lutar para enxergar,enxergando lutar para sermos melhores, pois uma vida sem reflexão não merece ser vivida"Sócrates", e o momento é hoje pois amanhã o impacto do filme passa e passamos a não enxergar.,o seu texto foi muito bom,detalhes importantes e boa aplicação ,Parabéns.

Georgia disse...

Nossa, demais seu texto. Mesmo.

Unknown disse...

Otimo texto .. Parabéns!